Egoísmo na noite de chuva...
Bem que gosto da chuva a escorrer dos telhados
A olhar-me com os seus olhos vagos e molhados,
E a cirandar com o vento, e a cantar nas esquinas...
E gosto de espiar ao longe, as ruas curvas,
Pelo olhar das vidraças molhadas e turvas
Embuçadas no véu friorento das neblinas...
Paro de ler às vezes, esquecido, um instante,
E olho a rua estirada... a rua que está morta...
Chove... que há de fazer aquele vulto adiante,
Encolhido e encostado ao vão daquela porta?
Nesses dias assim eu me sinto sozinho...
Egoísmo o meu talvez, só penso em meu conforto...
E o homem que se foi, molhado, no caminho?
E o barco que sumiu na neblina, sem porto?
Sinto-me bem... lá fora pelas ruas quietas,
Pelas ruas molhadas, úmidas, sombrias,
Passam sombras fugazes, rápidas, discretas
E erradias...
Ouço a chuva que chove... a chuva que cai nas ruas.
Aqui dentro, que íntimo bem-estar me invade!
Mas... por onde andarão aquelas crianças nuas
Que eu vi num bairro triste e longe da cidade?
Mas eu gosto da chuva, a chuva me faz bem...
Há dias em que a dor da minha alma é cinzenta,
Tenho uns vagos desejos de escutar Chopin
Enquanto a chuva chove, enquanto o vento venta...
Tão bom a gente ouvir a chuva assim lá fora
E encolher-se entre quentes lençóis, inconsciente,
Sem pensar... sem pensar... como eu pensei agora
Que há alguém num vão de porta a tiritar doente...
................................................................................................
Meu Deus, por que hei de estar me entristecendo à toa
Se essa chuva que canta é tão suave... tão boa...
(J.G. de Araújo Jorge)














Comentários